Uma diferença crescente entre as intenções de voto de homens e mulheres vem se consolidando como um dos fatores mais relevantes da disputa presidencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo reportagem da BBC News Brasil. O fenômeno, batizado de 'gap de gênero' por cientistas políticos, mede o distanciamento entre as preferências eleitorais femininas e masculinas e tem ganhado força no país desde 2018.
'Está na mão das mulheres, em certa medida, a reeleição do Lula. Se o Flávio consegue quebrar essa rejeição que tem entre as mulheres, aí é um passo para vencer as eleições', afirmou à BBC News Brasil o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas e autor do livro 'O país dividido', que analisa as disputas presidenciais das últimas duas décadas. Segundo Nicolau, o fosso entre os votos de homens e mulheres já existia antes de 2018, mas era bem menor do que o observado agora.
O pesquisador lembra que, em 2018, Jair Bolsonaro enfrentou maior rejeição entre mulheres jovens, mas venceu a eleição com margem pequena entre as eleitoras e margem muito ampla entre os eleitores. Já em 2022, o cenário se inverteu de forma inédita: Lula venceu com certa vantagem entre as mulheres e perdeu, por pouco, entre os homens, segundo os testes feitos por Nicolau a partir das pesquisas de intenção de voto daquele ano. Foi, segundo ele, a primeira vez que um candidato foi eleito vencendo em apenas um dos dois segmentos de gênero.
O que mostram as pesquisas de 2026
As sondagens deste ano indicam que o padrão pode se repetir. De acordo com a pesquisa Genial/Quaest realizada no início de agosto, Lula tem 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 39%. No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, a distância é menor: 45% a 44% em favor do presidente.
A vantagem de Lula é puxada quase inteiramente pelo eleitorado feminino. Segundo a Genial/Quaest, 47% das mulheres dizem que votariam no presidente contra 35% que optariam por Flávio, uma diferença de doze pontos percentuais. A pedido da BBC News Brasil, o instituto Quaest detalhou essa preferência a partir da média de pesquisas feitas entre fevereiro e agosto: entre as mulheres nordestinas, Lula tem 62% contra 23% de Flávio; entre as mulheres negras, 55% a 24%; e entre as de renda de até dois salários mínimos, 52% a 29%. Por faixa etária, o presidente tem vantagem superior a dez pontos entre as mulheres mais jovens e as mais idosas, enquanto entre as eleitoras de 35 a 59 anos a diferença é menor, de 43% a 37%. Entre os homens, o quadro se inverte, mas com margem mais estreita: 44% declaram voto em Flávio contra 40% em Lula.
O equilíbrio numérico do eleitorado reforça o peso do voto feminino no resultado final. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) citados pela reportagem, há 83,8 milhões de mulheres registradas para votar nesta eleição, o equivalente a 52,8% do total do eleitorado, cerca de 9 milhões a mais que os 74,8 milhões de homens habilitados a votar. A diferença reflete principalmente o fato de as brasileiras viverem, em média, mais que os homens.
Reação de Flávio Bolsonaro
No final de julho, Flávio Bolsonaro manifestou surpresa com a rejeição da maioria das mulheres ao seu nome nas pesquisas, defendendo que a direita tem propostas melhores em pautas como segurança pública e combate às drogas. 'Falta o quê? A gente comunicar melhor. Não dá para compreender como é que as pesquisas mostram, por exemplo, que as mulheres estão votando mais lá do que aqui', disse o senador, segundo a BBC News Brasil. 'Pergunta para uma mãe se ela quer o filho drogado. É a direita ou a esquerda que é contra as drogas? A esquerda faz programa de liberação de drogas.'
A reportagem também observa que o aumento da diferença entre os votos femininos e masculinos tem sido acompanhado, nas redes sociais, por um crescimento de discursos que atacam o voto feminino. Trechos de podcasts com frases como 'o voto feminino é o erro da democracia ocidental' circulam em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram, segundo a BBC News Brasil.